Meu Querido,
Acho que passou. Sim, passou. Ventou. Foi-se. Acho que estou curada, livre de ti.
Há muito tempo não sinto vontade de escrever-te. Miúdas alegrias cotidianas têm me bastado, essas são impossíveis de se compartilhar. Bem me lembro, cheguei a te oferecer a minha dor. Ofereci ombro, coração e corpo inteiro, quis pintar teu nome no céu, mas para isso nunca tive tamanho ou talento. Quis te gritar um mundo em declarações e não tive peito, não tive voz. Se eu disser que eu tremia? Meu Querido, eu tremia. Eu tremia até para atender o telefone, meus sentidos se confundiam mas mesmo assim tive força pra te estender o braço, caso precisasse. Mas você nunca precisou. Você nunca precisou de braço nem de nada meu, isso tanto me doía, mas e agora? Certo, agora que estou curada, nada do que tenho em lembrança me faz sentido. Ofereci uma mão, duas; estive a teu lado na queda e até quando subiu de volta. Sinto-me agora como se fosse uma astronauta: no silêncio do espaço eu pude assistir a tua 'decadência'. Eu estava lá, sim, vendo você cair. Tu que não enxergaste, mas sempre estive assistindo o espetáculo de fora, sofrendo junto e muito bem calada: sabes que sou de me preservar. E como doía. Amor meu, doía, sim. A impotência que eu sentia não cabe aqui, de te ver cair e não poder impedir a gravidade. Mas e agora? Hoje estou curada. Quero tirar fotos. Quero aprender línguas. Quero beijar meus três filhos todos os dias, comendo geléia do pote.
Ainda estou aqui sempre.
Um beijo,
d'A Querida.