porque para mim a vida é dinâmica e nunca lamento o que se perdeu, mas é sem dúvida uma sensação muito clara de que a vida escorre talvez rápida demais e, a cada momento, tudo se perde."
Ela estava contando que fizera dezesseis anos semana passada e que tinha ficado completamente louca como quem acabava de fazer quarenta, talvez não pelo peso da idade - e que idade? criança! -, talvez o dia do surto tenha apenas coincidido com o dia de seu nascimento, quem sabe, não sabia, mas contava mesmo assim que no seu aniversário tinha ficado completamente louca o dia inteiro, ainda por cima um sábado, e que sentia vontade de escrever um conto que começasse assim, aos dezesseis anos ela enlouqueceu completamente e de súbito abriu a janela do quarto e pôs-se a dançar nua sobre o telhado gritando muito alto que precisava de espaço, e pediu também um segundo chope enquanto a moça com quem conversava achava que era-um-bom-começo-se-ela-soubesse-desenvolver-bem-a-trama, mas ela apagou o cigarro e resmungou que trama, cara, eu não sei desenvolver bosta nenhuma, tenho preguiça de imaginar o que vem depois, e então elas riram como se aquilo não tivesse importância, tiraram os sapatos e melhor se acomodaram, e riam, e bebiam, e fumavam e alimentavam aquele momento e aquela amizade com assuntos que realmente não tinham importância, não tinham bosta de importância nenhuma, porque quando se tem dezesseis anos já se deve saber como camuflar as suas próprias dores, porque ninguém está nem aí se você chorou sozinha a madrugada toda: ninguém, está, nem, aí. Ponto. E como tudo nessa vida, como tudo nesses seus dezesseis-anos-de-loucura ela tinha mesmo preguiça de arranjar qualquer solução, fazia sempre tudo pela metade, teatro academia judô karate ginástica natação curso de pintura alemão inglês espanhol chinês esperanto, até sexo, gente, não tinha paciência pra nada, era tudo pela metade, achava chato pegar um livro e ler gostoso até os olhos começarem a pesar, tinha preguiça das pessoas e esperava sempre demais delas, esperava que todos a quisessem o tempo todo, esperava que qualquer estranho na rua entendesse o que diabos ela estava fazendo nua no telhado e porquê porra ela precisava de espaço, porque sabe, antigamente as coisas eram mesmo assim, o mundo sempre foi muito grande e acolhedor e ela se sentia no centro de tudo, mas agora, de cima do telhado, com suas roupas penduradas na janela ela via como as pessoas eram pequenas dentro de suas casas, suas 'tocas', seus ternos, seus medos, mentiras, orgulho e tudo o mais. Eu sou grande sim, ela disse pouco antes de apagar as luzes e cair na cama. Eu sou grande e amanhã eu começo a escrever. Ponto.